15 de janeiro de 2008

Portas, células, sótãos, banquete... o quarto que tinha de escolher era um sótão ou um estábulo, um santuário ou uma prisão?Era eu um homem ou um animal?Estava um mundo inesgotável de pensamentos dos quais eu bem sabia ter, no fundo, a chave... e nunca se decidiam a estender-me a chave, porque nenhum destes pensamentos era eu, embora fossem tudo o que de facto eu pensava. As portas dos quartos e células defronte dos quais me encontrava, e que se agitavam de cólera no meu coração, com as suas fechaduras e as suas chaves, eram, na realidade, espelhadas do silêncio de uma hipócrita animalidade: - abrir-me-ei quando fores como eu - eis o que cada fechadura, saltando do meu coração, parecia dizer-me. Eu era homem, mas as portas, com as suas fechaduras de cólera, queriam ver-me a pensar-me, a mim mesmo, como animal, a admitir, enfim, a minha animalidade. E era o que eu não podia aceitar. Desconfiava de cada porta a passar e nenhuma me parecia segura pois não sabia se eram portas que davam sobre as prisões do mundo ou sobre os espaços das eternidades. Ah! Se todos os quartos tivessem sido iluminados como no tempo em que, tendo as encostas da montanha aberto perante mim as portas da imensidão, eu via o infinito sem fechadura e sem chave... mas o tempo era já trespassado.Porque nos encerrámos assim - não paravam de bramir todas as fechaduras com as suas portas e as suas chaves - nós, que somos tudo o que te quis encerrar ?Deixa-te estar por fim, deixa-te estar, todos somos dignos porque tu és digno e somos excedidos a fim de ser fixos e toda a nossa direcção nunca foi senão o ódio que chocámos para a tua dignidade.Quando estas palavras de revolta dos homens contra a minha boa vontade se completavam ouvi um lancinar de gongo que protestava até às nuvens, este era o sinal de que todo o infinito estava agora ultrapassado pois a imensidão, ela própria, uivava perante a violência que lhe tinha sido feita, e eu, sabia que o infinito é a própria dimensão sem outra medida que a da sua própria vontade que grita, até às nuvens, desde a hora em que é ultrajada. Mas que tenho eu que ver com todas estas portas do ser e dos seus símbolos figurados onde entrar? Serei eu então o céu ou o mar, ou as vagas das imensidões que escuto rugir no meu coração como carnes num estábulo, eu, que caminho o meu esqueleto na carne e que até à minha ultima hora não terminarei de reenvolver. Portas eu não terei o vosso orgulho! Prefiro o ruído do meu passo na terra à violência das eternidades.Mas a esta maldição contra a vida que me encerra nos caprichos da sua entidade já não tive tempo de a completar pois então já não era mais do que um levantamento feito pelas vagas que me rugiam ... e todas essas portas fêmeas de fechaduras de múltiplas chaves, que do oriente hipnótico das coisas voava com rapacidade para mim, transportavam-me, em não sei qual coração ou ser de ser, que me envolvia. São as mães que acometem no eu de todo o homem com as suas asas de sagacidade - era o que me dizia nesse momento o meu pensamento - e eu não sentia mais que o arremesso e o passo de homem onde me escutava sobre a terra, e a terra tinha-me enterrado, tendo-me largado com o meu esqueleto e a minha carne, e eu não era mais do que a intrusão destas mulheres onde cada porta era agora rejeitada.Eis enfim que a liberdade me regressa no pensar (em mim) estas excepções ligadas. Liberdade de ser e abraçar o que (se) pensa, quer dizer, de se misturar. Para conhecer a felicidade de existir cessaste de te ter como o marco dos quatro braços cravados contra tudo aquilo que quis denunciar e conceder. As coisas não serão como as quiseste pensar mas tal qual se amarem - elas mesmas - contra o teu espírito de contenção insensata.Não podemos viver sem animalidade. Conheço desde há demasiado tempo o ponto de traçado espelhado onde se enreda a vontade humana e as abomináveis torções que irrompem da parte de uma entidade revoltada por ser lograda de todas estas falsas ideias. O eu quero – imprescritível - do eu não está sozinho, pois é realmente neste ponto do cérebro - em que a alma individual e pessoal se pensa - que outros coabitam com ele, e trabalham, desde sempre, contra ele. Antes que tivesse tido tempo de decidir por mim próprio o ser de viver despossuiu-me. (retirou-me do conhecimento). E foi assim que as mães violaram o meu pensamento. Onda após onda convergem sobre mim de todos os pontos dos seus imundos desejos até ao dia em que entrarão em carência, a carência do manifestado da vida.Conheço a carne de consumo do sótão e da fechadura do estábulo, a batalha entre o manifestado e suas mães, e o não manifestado dos sobreviventes. Sobrevida do que não foi vida. Sísifo empurrando a sua rocha no espírito não têm mais realidade nos sonhos do que o grito deste terrível Aqui jaz, onde o que não existe na vida e para quem o ser necessita de sobrevida, se me fez reconhecer no sonho quando as mães me repuseram, de novo, na vida. O inacessível infinito das sobrevidas é para o ser mais tentador que o ser, pois, sobreviver, é ultrapassar um ser quando este ser é estrangulado pela vida. Viver é um tempo, sobreviver é, pela recusa do tempo de ser, não deixar esta eternidade de não ser onde triunfa a inteligência celeste, espírito do não manifestado da vida. É aqui - digo eu às mães do sonho no momento de me despertar - é aqui em breve que a veremos existir... Antonin Artaud; Les méres à l’etáble ; Les nouveaux écrits de Rodez ; 1946. (tradução livre)