12 de outubro de 2012


Silêncio.

Esgota-se o eco na lama desta terra. O deserto é escorraçado nos ossos. Já não há lugar que não seja nos olhos.

A noção do plástico dá-se incerta em matinal leite ao censo dos cadavéricos costumes.

A lira, humedecida
nos braços, entoa
da rocha fendida,
o dizer da polissemia,
e os poços verdes,
(um lugar assim parado),
ao largo dessa terra
fazem luz
de uma fala perdida.

Gestos em corte poético,
nos lábios do prazer,
em distensão requintada,
ao rubro, num dia prosaico.

Elevado aos píncaros culturais da gema, (conotada do salivar volteio), faz-se a côdea dos escudos da terra. E, nos lagos da agitação placenta, em contusão das fontes luxuosas, o arame perfaz a ascensão dos desertos ao gotejante peito que faz, sincopadamente, o plástico.

11 de outubro de 2012


(…)

“Tem a palavra o Sr. Ministro do ruído de cascos”.

O Sr. Ministro do Ruído de Cascos – Alguns dos nossos colegas supõem que me furto a explicações. Não vimos nós, no decurso da sessão anterior, o Sr. Carvão exigir ao governo que exponha as razões que o levaram a comprar uma manada de elefantes brancos sem tromba? Estou pronto a discutir este assunto logo que a assembleia o deseje. Se o não manifestei na altura, digo-o agora, foi porque temia que palavras imprudentes pudessem ser proferidas daquele lado (na extrema esquerda) da assembleia. (Fortes aplausos ao centro, à direita e em diversas bancadas à esquerda).

A Menina Lanterna – E as empresas que subsidiou para utilizarem terra barrenta na produção de força motriz?

O Sr. Presidente – Peço-lhe que deixe o Sr. Ministro do ruído de cascos explicar-se.

Uma voz na extrema direita – Você é um abominável tratante.

O Sr. Ministro do Ruído de Cascos - … Não se chegou ao ponto de invocar os espirros dos fogões para condenar a colocação de carris nos relvados de Bagatela? Tais processos são justamente dignos das orelhas surdas pelas flores de alcachofra e que expelem cornetas com fitinhas. Não é possível continuar sem bússola cantante.

O Sr. Presidente do Conselho – O governo pede o voto de confiança. Que a vossa sogra se ponha a dormir.

(…)

Benjamin Péret – “Morte aos chuis e ao campo de honra” - &etc (trad. Vitor Silva Tavares)

Apresentaram-me a verdadeira forma do alabastro e as suas secretas palavras - espalhadas como um todo - por sobre a mesa dos auspícios, soavam como a providência salivar dos tópicos do consenso, a crítica, entretanto, cantava o permanecer dos anos caídos sobre as potestades vazias, e os cães a salivar.

E a temperança do som mal viver dos dois lados da formatação técnica era qualquer coisa que não é sensato dizer. Calem-se as pontes. Que se fechem as grutas. As terras. A razão que passa nas ondas não tem cor de mar nem curvas de entidade. Que se pare por aqui.

10 de outubro de 2012


A lânguida coloração
dos campos
em cegueira colérica,
combina, aos saltos,
a manhã do verbo
numa visitação tardia,
do desolado apólogo.

Denotado retiro das fibras.

Lentamente a chuva cai o tempo das eras anunciadas,
as labirínticas linhas líquidas da matéria caem visceralmente
a noite em silêncio, num rumor que pairasse o desvelar.

esta época
do despedaçar de um povo
não é feita
para a poesia
nem para esse tipo de coisas:
quando nos preparamos
para
escrever
é
como se
escrevêssemos
sobre a outra face
do participar
do sofrimento
e eis porque
os meus poemas
são cheios de azedume
(no fundo, o que se pode mudar?)
e sobretudo
tão
raros


Nikos Engonòpoulos – “Eleusis” – (trad. livre da trad. francesa)

9 de outubro de 2012


A Cigarra e a formiga.

Num dia de inverno uma cigarra esfomeada pediu a uma Formiga um pouco da comida que esta tinha armazenado.
- O quê? – disse a Formiga – Não trataste de armazenar alguma comida para ti , em vez de estares sempre a cantar?
- Assim fiz – respondeu a Cigarra -, assim fiz; mas as tuas amigas entraram por minha casa adentro e levaram-ma toda.

Ambrose Bierce – Aesopus Emendatus – Antígona (trad. Fernando Gonçalves)

Feliz da lua que em canto passado grita os fundos da rouquidão tranquila.

O nome em silêncio falado.

Um travo de sol desponta na manhã o soletrar do desconcerto aos descobertos espelhos.

Desdobram, atravessam, a nauseante película do cerco.
O inesgotável reservatório das combinações.
As alinhadas danças dos resíduos.
As grosseiras linhas tomadas na ostentação cega da maquinal vaidade.

O insurgir da decepção nas manhãs em que sopra, sem se saber de onde, um miraculoso advento de cidade, faz trazer assim, alinhado, o que vai-se a fazer em dourado atrofio da demência. Socorrem-se as longas danças do horror e da devastação.

E não se trata (aqui) de entoar os solfejos da anarquia.

Nas longas manhãs das fontes e das facções, os rebentos em assimetria, fazem fútil vampirismo dos sonetos cravados na aspiração.

8 de outubro de 2012


Assola essa ausência. Já não lembro. Chegado em espanto o torpor (me) terminará na indiferença da voz que cala o corpo de vez. Um fundo de beleza. Instantes, avenidas, multidões. O olhar destacado floresce a maneira do pensar um mundo. Basta olhar a voz no silêncio para que se ponha sentido.

A carícia de passagem.
O residual de todo o discurso.

A verdadeira história é feita de curtas palavras. De silêncio. De sobrevivência. De uma crueldade ancestral. De rápidas imagens reveladas na plenitude de uma intensidade dramática.

Cantos de ilusão.
Marcados na carne.
Em velada intenção.
Do positivo animal.

6 de outubro de 2012


Uma paz. Uma guerra.
Ao estender (mais) remoto.
Pertence. A noite.
E o desencanto em que traz.
(A personagem).
Apaziguada ao amanhecer que encontra.
O esgotado corpo cadente.
Na luz dos olhos apagados.
Por mensagem do leve incentivo.

Solene e breve mente.

Poderia aspergir todo um elenco. Um preparado de alienação.
O imenso caudal das microscópicas imagens que fluísse as vias corporais do engenho.
E da arte. Corresse a ilusão e tudo recomeçasse.

Pois pode ser o que dizia-se da imagem da adoração.
Perto instante a que não chegassem palavras para fazer em nós pedaços dele.

Furiosas marés revoltas.
Tomai-me em paz.
No convém.
Do agradecer embevecido.
E reverente mente.
Retirado em face desse “dom”.

5 de outubro de 2012


A suspensa expressão da espera assenta no instante o rosto crispado.
(É preciso ver para lhe fixar a palavra).
Pois o muito tempo é relativo, tudo foi dito.
Impresso no rosto como a salvaguarda do privilégio.

Um peso que adormece, revela na voz, o “mistério” do jogo e da hierarquia.

Na hora do regresso, plasmado, um irisado gatilho arbitra a ligação duma ausência em suposta situação do vendaval reflexo.
Natural solução doutra ideia. O olhar sentido aqui.
De fonte ao alto rio a rebentar num movimento atirado ao quadricular lugar da sonora perversão da palavra.

Já!

Sombras irrompem das antigas imagens manifestas à luz presente.
Ares do destino, diz-se.
Chega-se o fim no revelar das imagens escondidas.
Ecos de selvajaria, a progenitura do sacrifício.
A imensa história dos círculos da silenciosa brutalidade.
Cegas manobras. O sangue perdido.
O deslizar na distribuição das palavras
Ao sabor das fúteis edificações da memória do paradoxo vivo.
Últimas tábuas da inscrição.
Os altares da mais ancestral violência.
Os antigos gritos.

Sabei que ao silêncio se abandona este fogo.
E sabei, depois, a visão de um mar tão quieto como imenso o dia.
Tirai-vos de cena, acordai das imagens que passam
Como relatos mortos das vidas arrancadas.

Corpo ignorado, o dia em que chegue a hora.

Que chovam os silêncios aterradores.
O dissipar de qualquer coisa.
Um qualquer momento somado das vozes
Que desde sempre correram este caminho seco.

2 de outubro de 2012


Estamos cegos dos gumes acutilantes
Das cordas e cantos
Das torrentes de vozes duplas
Uma imensa garganta voraz
E fogos não tão secretos que se vejam.

De parietal exposto à borrasca latente.
Sucedem os primeiros sons à confusão do raiar.
Branco. Como ultimato carenciado.
Num tempo que já não conta.
Em moldura envelhecida das infâncias.
Séculos de areia. Poros de barro.
As petrificadas sentenças nos ombros, suavemente.
São como fósseis listados dos séculos a mais.
Num passo firme que é nunca chegar.
Às palavras de todas as vidas que suponham-se assim.

26 de setembro de 2012


Regressado ao matinal resfolegar das ocasiões passadas.
Aos envios do olhar mirabolante.
Luto por compensar o vazio fundo das pedras e castelos.
O que ainda me diz um fio de matéria,
Se matéria me diz o peso e a forma, massa radical dos incêndios.
É que quisera-se assim o caminho em cordões de sangue pesado.
Derramado ao acaso das horas, dos olhares.
Como o fulminante regresso ou um mesmo caminho irreal.
Efeito abissal das fontes tão do alcance (em fim) que lhe tomasse o gosto.
Na usurpação dos corpos. Semelhante. O que irá dizer.
Agora que se incendeia os olhos lavado em fogo um corpo invisível.
O que irá dizer então.
Do que anunciam as inacessíveis montanhas desse lado em que se vê
O vago lembrar das vidas passadas, terríveis.

Fazeis rir as pedras, chorar as fontes, adormecer as donzelas.

Burilados. Demenciais.
Um último estertor dos açougues.
Tal era a impressão.
Das (intencionais) palavras e silêncios.

(Onde faz-se vida duma antiga experiência da leitura do olhar).

Nos planos de vida.
Num certo fogo particular. Celular.
Que faz do princípio rasgado ao iniciar dos possíveis.
Um atribuir no fundo.

14 de junho de 2012

Diz-se, com sensatez, que quando termina o combustível fica o mistério da pedra verde, oculta em recanto invisível, não discernível.

Insensatamente diga-se em brutal que não vai mesmo valer a quem quer pois essa é a profissão das palavras, dúplicas de intenção.

O seu contraponto é silêncio, verdadeira palavra … e o que fez o alexandre ó górdio?

13 de junho de 2012

Retalhos de uma mesma imagem.
O som e o seu objecto parcialmente enquadrado em natural.
Isto é uma coisa. Todo o fragmento disso, outra.

Sucedâneo de vida o tempo roda à sua maneira.
Nas palavras perde em olhar a distância, nunca mais.
Adivinho, as ligações da sombra poisam na terra, funerária.
Quem fala entre a sinfonia e o silêncio o estar do compassivo tempo nas hostes donde o abandonado escrito na rocha diz o outro em corporal metafórica que dá-se à maioridade exposto e revela a original tipografia impressa em sono num barco quente.

Urge o que não foi feito em frutas vizinhas.
A concórdia dos povos.
A nota em redor do solo encharcado.

Um pouco mais acima, nas falésias, os arquétipos da solução encantada.
Como rios a cair do monte em rasto de espuma.
Trazem uma altivez no olhar ou um madrugar de quem vê.
Delirante como um progredir da história.
Ao lugar da urgência do sul, cultivo que chegue.

9 de junho de 2012

Que fazer é uma expressão repetida em anterior estado de eclipse.
Nos olhos como sequer calafrio distante.
Qual demente ou cadeira sois, respiração garrotar que se aperta.

Submersa ventilação do desafio retórico.
Compassos e simetrias, as liquidações do costume.

O cintilar penumbra outro mesmo ao voltear da violência, quotidiano.
Numa abertura silvestre em sintonias violinas.
Que faz concepção sinal da conjunção dos ânimos.
Num apelo às marés onde calam-se as mãos em certa cor.
Outro ficara na praia, deserto. O horizonte aqui surdo se apaga e gasta a divindade antes que saia a fala e me deixe levar na condição das ondas. Sem querer saber o não sei. Deixado ao vibrante horror dos corpos rasurados. Na ilusão dum exercício respiratório. A manhã, ao ar do momento calamitoso, pois não é sensato escrevê-lo, considera o acto nas tomadas de assombramento.

8 de junho de 2012

Já passou tempo e agora o início corrobora em contraponto o acto. Nunca é tarde apenas vivo o seu corpo era a questão de vez ficado atrás de cada rosto. Num chão de existência que passa a razão dividida da prece humana ao necessitar cultural que é. Esforçado modo em circular saber pois também não é por aqui que nunca. Regresso a um quadro pregado a tinta viva ao fundo de uma qualquer parede espessa.
Na viragem. Como já se vê. O mesmo, mesmo fazer.
Ou uma interpretação possível.
Lâmina dum espelho que caíra da noite em botão.
Embrulhado em artifício. Expira. Um simples auricular.
Esfera. Botão. Azulejos postos brilhantes. O alinhamento dos astros ou do que quer que seja. Para lá do possível fragor das ondas lentamente a bruma. Chamada à última da hora ao quarto raiz das bestas em crispação visível. Faz os últimos universais retoques ao cabo da voz aprendiz da fala que o levasse. Nas horas da ciclicamente luarte a sombra ao aparecer do contrário em função e até que feito.